A MORTE DO ROUXINOL

Um homem enamorado fez uma promessa duvidosa à sua amada: iria trazer-lhe uma rosa vermelha no próximo encontro. Porém, esqueceu-se que não era época de rosas, que era inverno e que havia neve. Um pássaro ouviu a tola promessa e se compadeceu do jovem rapaz. E tomou uma corajosa decisão. Na madrugada da manhã de domingo cantou um triste solfejo, seu último hino. Depois voou para longe e projetou-se violentamente contra o espinho pontiagudo, o qual lhe penetrou o peito até chegar ao coração. E eis que a roseira se vivificou com o líquido do pobre mártir, fazendo brotar uma linda rosa. E naquela tarde lá estava o faceiro rapaz com sua flor temporã, admirado pela moça e por todos os demais. E na neve, sob a janela do seu quarto, jazia morto o pequeno e doce rouxinol.


Triste, não? Com uma história assim nas mãos, basta entregá-la a um bom compositor e depois a uma dupla de sertanejo universitário para gravar e pronto: eis um novo sucesso! Porém, eu sempre me inquietei com esses “sucessos”. Caramba, não há dia em que não sejamos bombardeados por uma sucessão de músicas falando de amores fracassados, de não sei quem que partiu e nunca mais voltou, do fulano que fugiu com outra, do cara que está morrendo de amor não correspondido, e por aí vai — ladeira abaixo, quase sempre.


A nossa mente age de acordo com o que lhe damos. Se você ouve músicas de fracasso e desesperança, e vê notícias ruins todo o tempo como covid, assassinatos, corrupção etc., é só isso que a sua mente lhe entregará ao acordar. “Ah, Cezar, se eu não ouvir ou ver tudo isso serei um alienado.” Pois que seja! Melhor um alienado feliz do que um bem informado que gasta a vida num poço de pessimismo.


Entenda que é com essas emoções doentias que você tratará Deus, seus familiares e as outras pessoas durante o dia. Se a sua mente só se enche do que não presta, como poderá ajudar alguém rumo à felicidade? Ninguém dá o que não tem. Um cego não guia outro cego. Então, quem mesmo você quer guiar nesta vida?


A vida com Deus é o inverso de todas essas pragas que nos cercam. É uma vida que grita positivamente dentro de nós, que cria, que inova, que renova, que transforma este mundo doido em algo digno de ser vivido. É uma vida de pureza, de mente limpa, de olhar esperançoso.


Não quero parecer um adolescente ao relembrar a história do rouxinol, mas ela bem que poderia ser vertida para o ambiente doloroso da paixão de Cristo, o qual teve não um, mas vários espinhos arranhando o seu crânio. Eu já tomei injeção na testa, e foi a maior dor que já senti em toda a minha vida. Imagine agora que, além dos espinhos, o corpo daquele inocente também jorrava sangue por todo lado para que as nossas vidas pudessem florescer, e não para que afundássemos em pessimismo ou ceticismo.


Após duas grandes guerras e uma revolução, papai dizia que, por ter sobrevivido a todas elas, não ligava para as crises. Porque crise é um estado de alma, é entrar em uma situação já com um sentimento antecipado de derrota. Dificuldade é outra coisa: é sofrer enquanto se luta. E só ela traz a vitória. Já o desanimado não avança, por isso nunca pode vencer.


Ah, você entregou os pontos? Assumiu ar de coitado? Vixe, agora sim você está em crise. E sem pensamentos fortes e positivos em seu coração, talvez você não viva, apenas sobreviva. Por isso Jesus deixou-nos seus evangelhos: para que você tenha vida, e vida em abundância.


Um corredor de obstáculos que salta os cavaletes à sua frente sabe que eles o acompanharão até o fim da corrida. Saber que teremos muitos deles a serem superados em nosso dia a dia faz parte da vida, então não adianta espernear, gritar, se lamentar, se queixar. Os obstáculos continuarão à nossa frente até que os deixemos para trás. Mas, para isso, uma mente saudável é mais do que importante: é fundamental. Nossos obstáculos só acabarão quando chegarmos ao fim da corrida aqui na Terra.


O rouxinol perdeu a sua vida em prol de algo nobre. E você, vai gastar a sua em prol de quê? Tenho mais de 65 anos e estou completamente na ativa. E afirmo que gastei mais de cinco horas para escrever, revisar e publicar este texto. Sem uma mente livre do lixo do mundo eu não o teria conseguido. Porque, como eu já disse aqui, ninguém dá o que não tem. Até o próximo post.

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