O HOMEM QUE GANHAVA PERDENDO

A água começava a entrar em ebulição. E eu contemplava pensativo aquela chama azulada aquecendo o bule. O chiado da fervura me fazia pensar na mudança que os corpos sofrem ao serem limpados das suas impurezas:

- a água fervente matando as bactérias,

- o cadinho separando no fogo o ouro dos minérios menos nobres,

- o bisturi cortando o corpo em busca de células infectadas.


Creio que tudo o que é limpado sofre. Sofre a boa árvore frutífera ao ser podada, a parede suja ao ser sulcada pela lixa, o coração humano ao ser convidado a deixar sua cômoda vidinha para buscar as verdadeiras satisfações que saciam e que não passam.


Mas, isso dói. Quase tudo o que nos escapa do controle machuca, causa insegurança, insônia; traz amargura, até. Porque estamos mais do que habituados a olhar somente o que se pode ver, o que se pode tocar. O horizonte longínquo e as surpresas que ele esconde por trás da névoa do entardecer não nos desperta curiosidade. Só conta o que é visível, tangível, palpável. Se isso ocorre, está tudo bem. Se desaparece de nossa vista, é o caos.


Parece que falta-nos o chão, o ar; para muitos a vida fica amarga, sem expectativa decente. Um reclama da economia e já ao seu lado faz-se coro de muitas vozes. Concordando, claro. Outros reclamam dos governantes, outros ainda do frio e muitos mais do calor. Porém, alguns de nós são diferentes.


Soube de um homem que tinha tudo para ser um desses amargos, um eterno frustrado por suas constantes trombadas com a vida. Na primeira tentativa de emprego o entrevistador lhe perguntara se teria sido capaz de tirar nota melhor no teste escrito. Disse que sim. Perdeu o emprego. “Por que não deu tudo de si, então? Por que deixou para depois?”, retorquiu o empregador. Bem, valeu a lição, pensou ele.


E aí candidatou-se a vereador em sua cidade. Perdeu. Depois, a prefeito. Perdeu. Ainda a deputado estadual. Nova queda. A federal. Hummm... A governador do estado. Nada! Tentou o senado. Novo banho. A presidente da república. Aí, ganhou. É, ganhou! Seu nome? Abraham Lincoln, um dos melhores presidentes que os Estados Unidos já teve.


Deus trabalha estranhamente nos corações. Faz crescer perdendo; corta um braço da árvore para dar-lhe um ramo melhor e com um fruto mais doce; faz-nos passar pela pobreza para conhecermos a verdadeira riqueza; permite-nos uma pandemia para fazer-nos enxergar o que é realmente importante nesta vida. Jesus disse: Todo ramo (...) que dá fruto, Ele o poda para que dê mais fruto ainda.


Uma vez livre das impurezas, o ouro vira lingote. Pesado e valioso. Mas, pouco antes era apenas pó misturado a outros pós, sujeira sem valor.


Que os dias ferventes pelos quais passamos sirvam-nos de sinal para os alegres que nos aguardam. E que não nos falte a coragem de prosseguir quando a derrota surgir na primeira eleição. Porque haverá muitas outras até chegarmos a presidente.

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